Fui ontem ver a famosa e polémica exposição -
Bodies the Exhibition - em Lisboa.
Um dos aspectos que incomoda a maior parte das pessoas que não querem ver a exposição é a questão da origem dos corpos. O que se pode dizer sobre este assunto? Após algumas investigações percebe-se facilmente que o anatomista alemão inventor da técnica de preservação dos corpos e organizador da exposição é um personagem duvidoso. Gunther von Hagens foi várias vezes processado por situações diversas relativas à utilização de corpos em autópsias e agora na exposição. Os países de origem da maior parte desses corpos levam logo a desconfiar que os processos éticos relativamente ao direito de todo o ser humano a decidir o destino do seu corpo sejam respeitados. Os corpos usados na exposição vêm da China, Gunther von Hagens afirma ter seguido os procedimentos legais alemães para recuperar os corpos de defuntos mas diz não poder garantir que o insituto de medicina na China não tenha enviado corpos provenientes de execuções. Os corpos sobre os quais havia dúvidas (corpos com balas por exemplo) foram incinerados não chegando a ser portanto exibidos. A informação não é todavia muito clara e parece-me legítimo ter dúvidas sobre o procedimento. No site internacional da exposição deveria ser possível aceder a maior informação sobre estes corpos, não há, é um problema.
Caso os corpos sejam de origens não duvidosas, o que vimos não ser nada certo, a exposição é uma inicitaiva pedagógica positiva. O que mais me interessou foi observar a atitude das pessoas perante a exposição e é realmente incrível a ignorância geral relativamente ao corpo humano. Lembro-me há uns bons anos, na escola, de um professor pedir como exercício, logo nos primeiros dias de aulas, que desenhassemos o sistema digestivo do ser humano. A maior parte das crianças de 12 anos apenas tinha uma vaga ideia de como funcionava.
Claro que para muitas pessoas é incómodo ser confrontado com o seu corpo. É essa uma problemática complexa e de que não vou falar aqui mas parece-me errado achar a exposiçao mórbida. Há uma componente exibicionista, é necessariamente exibicionista olharmos para o corpo de outrem com curiosidade, é algo que nos foi dito ser errado desde sempre. Não se olha para as pessoas, não se observa os corpos. Só os médicos têm esse direito.
Fica no entanto um problema ético por resolver : cada ser humano tem de ter o direito de decidir se quer ou não que o seu corpo seja exposto, doado ou usado para fins de investigação. Se se acha que é pouco, seria importante mobilizar as pessoas para o fazerem mais e deixarem de achar mórbido e horrível o que é apenas a nossa finitude humana. Fazê-lo com uma exposição duvidosa quanto aos procedimentos éticos não é uma boa ideia. E visto o sucesso da exposição espero que os benefícios sirvam para pagar quem para isto trabalhou, claro, mas sobretudo programas de apoio à sensibilização da doação de orgãos ou outras causas semelhantes.
Eu que sou eu, gostei, aprendi umas coisas, clarifiquei sobretudo a ligação e organização de alguns aspectos do corpo humano mas lamentei o evidente : a onipresença da esfera médica e a ausência de esfera existencial - mais uma vez, apenas a medicina e a ausência da filosofia. Claro que os filósofos são inuteis, mas quando as pessoas são confrontadas com uma exposição que levanta questões éticas anda tudo às turras em debates ideológicos. Estes debates são superficiais, incapazes de abordar o verdadeiro problema que é não só a questão ética da doação dos corpos mas a temática tabu da morte e da relação do homem com o seu corpo. São várias as ironias mas os problemas levantados pelos que criticam esta exposição são mais suma vez a evidência de que precisamos das kit boxes (os horrendos conceitos) dos filósofos para pensarmos certos problemas.