Monday, November 05, 2007

DESAFIOS

Aproveito os desafios lançados pelo Mise en Abyme e pelo Acossado para regressar à blogosfera que tenho deixado totalmente de lado...

Ao desafio livresco...

"Mais tout septembre s'écoula sans lettres ni visites" Gustave Flaubert, Madame Bovary (1857) Paris, Imprimerie Nationale 1994.

Não sei a quem lance o desafio pois os bloguistas que conheço já o levaram a cabo.

Ao desafio cinematográfico...

Bem complicado isto de escolher 5 filmes. Digamos que os 5 filmes que aqui apresento (por ordem cronológica) são aqueles que me definem e não os maiores filmes da história do cinema

1) Splendor in the Grass de Elia Kazan (1961)
2)Pierrot le Fou de Jean Luc Godard (1965)
3) Persona de Ingmar Bergman (1966)
4) Bleu de Krzysztof Kieslowsky (1993)
5) L'Humanité de Bruno Dumont (1999)

Argh... Não gostei nada disto... O que é que esta frase vem fazer aqui? E estes filmes assim no nada?

Saturday, September 01, 2007

Bodies the Exhibition

Fui ontem ver a famosa e polémica exposição - Bodies the Exhibition - em Lisboa.

Um dos aspectos que incomoda a maior parte das pessoas que não querem ver a exposição é a questão da origem dos corpos. O que se pode dizer sobre este assunto? Após algumas investigações percebe-se facilmente que o anatomista alemão inventor da técnica de preservação dos corpos e organizador da exposição é um personagem duvidoso. Gunther von Hagens foi várias vezes processado por situações diversas relativas à utilização de corpos em autópsias e agora na exposição. Os países de origem da maior parte desses corpos levam logo a desconfiar que os processos éticos relativamente ao direito de todo o ser humano a decidir o destino do seu corpo sejam respeitados. Os corpos usados na exposição vêm da China, Gunther von Hagens afirma ter seguido os procedimentos legais alemães para recuperar os corpos de defuntos mas diz não poder garantir que o insituto de medicina na China não tenha enviado corpos provenientes de execuções. Os corpos sobre os quais havia dúvidas (corpos com balas por exemplo) foram incinerados não chegando a ser portanto exibidos. A informação não é todavia muito clara e parece-me legítimo ter dúvidas sobre o procedimento. No site internacional da exposição deveria ser possível aceder a maior informação sobre estes corpos, não há, é um problema.

Caso os corpos sejam de origens não duvidosas, o que vimos não ser nada certo, a exposição é uma inicitaiva pedagógica positiva. O que mais me interessou foi observar a atitude das pessoas perante a exposição e é realmente incrível a ignorância geral relativamente ao corpo humano. Lembro-me há uns bons anos, na escola, de um professor pedir como exercício, logo nos primeiros dias de aulas, que desenhassemos o sistema digestivo do ser humano. A maior parte das crianças de 12 anos apenas tinha uma vaga ideia de como funcionava.

Claro que para muitas pessoas é incómodo ser confrontado com o seu corpo. É essa uma problemática complexa e de que não vou falar aqui mas parece-me errado achar a exposiçao mórbida. Há uma componente exibicionista, é necessariamente exibicionista olharmos para o corpo de outrem com curiosidade, é algo que nos foi dito ser errado desde sempre. Não se olha para as pessoas, não se observa os corpos. Só os médicos têm esse direito.

Fica no entanto um problema ético por resolver : cada ser humano tem de ter o direito de decidir se quer ou não que o seu corpo seja exposto, doado ou usado para fins de investigação. Se se acha que é pouco, seria importante mobilizar as pessoas para o fazerem mais e deixarem de achar mórbido e horrível o que é apenas a nossa finitude humana. Fazê-lo com uma exposição duvidosa quanto aos procedimentos éticos não é uma boa ideia. E visto o sucesso da exposição espero que os benefícios sirvam para pagar quem para isto trabalhou, claro, mas sobretudo programas de apoio à sensibilização da doação de orgãos ou outras causas semelhantes.

Eu que sou eu, gostei, aprendi umas coisas, clarifiquei sobretudo a ligação e organização de alguns aspectos do corpo humano mas lamentei o evidente : a onipresença da esfera médica e a ausência de esfera existencial - mais uma vez, apenas a medicina e a ausência da filosofia. Claro que os filósofos são inuteis, mas quando as pessoas são confrontadas com uma exposição que levanta questões éticas anda tudo às turras em debates ideológicos. Estes debates são superficiais, incapazes de abordar o verdadeiro problema que é não só a questão ética da doação dos corpos mas a temática tabu da morte e da relação do homem com o seu corpo. São várias as ironias mas os problemas levantados pelos que criticam esta exposição são mais suma vez a evidência de que precisamos das kit boxes (os horrendos conceitos) dos filósofos para pensarmos certos problemas.

Thursday, July 26, 2007

Os livros que andam na minha mala

Peço desculpas ao Acossado por não ter respondido mais cedo ao desafio que me propôs, andava distraída e incapacitada de escrever.

Então aqui vão os últimos 5 livros que li, e sem batota : estou a acabar A casa Quieta de Rodrigo Guedes Carvalho, antes disso andei a reler e.e. cummings entre pausas na obra de Jonathan Littell que deu muito que falar, Les Bienveillantes, fiquei um mês nesse calhamaço. Os livros que andam atrás de mim há meses são a obra que estou a trabalhar, Em Nome da Terra de Vergílio Ferreira que vou lendo e relendo aos poucos assim como algumas obras sobre o autor entre as quais a densa obra de Maria Rosa Goulart, O Percurso de Vergílio Ferreira. Não sei se isto faz cinco, antes destas coisas andava mergulhada em La Biologie de la Mort - um livro que revisita as teorias biologicas e evolucionistas da morte, e The Cyborg Handbook - uma recolha de textos dos mais interresantes aos mais delirantes sobre a relação entre corpo e cibernética. Na mala que tenho aqui ao meu lado levo Le Bal de Irène Némirovsky, Nítido Nulo de Vergílio Ferreira e uns guias de Itália.

Saturday, June 30, 2007



L'Avventura

Monday, June 25, 2007

Sonho de uma noite de Verão

A noite de São João é também uma noite especial na Escandinávia. Nela, devido ao solistício de Verão e portanto à mudança de rumo do Sol, acreditava-se que as energias maléficas estavam particularmente presentes e que para afastá-las era necessário acender grandes fogueiras. As bruxas fugiam assim e partiam para outras terras. Aproveitou-se também para queimar algumas mas a ideia inicial era apenas afastar os maus espíritos. Nessa longa noite de Verão, os Escandinavos reunem-se nas praias ou à beira dos lagos onde se acendem as fogueiras, levam piqueniques e bebidas e preparam-se para uma longa noite de dança e convívio, as mulheres põem grinaldas na cabeça e dança-se pela noite adentro. Noite essa muito curta, apenas algumas horas e nunca de noite cerrada nesta época do ano.

Revisitar os clássicos

Sequência tirada de The Untouchables, 1987 - uma homenagem a Eisenstein e aos marinheiros do Potemkine



Brian de Palma consegue sempre revisitar os clássicos para transformá-los em novos grandes momentos de cinema.

Monday, June 18, 2007

Helsingor - o castelo de Hamlet


O castelo de Kronborg é o castelo do Hamlet de Shakespeare, fica em Helsingor a cerca de 40 km a Norte de Copenhaga. Na peça, este castelo é apenas referido como o castelo de Helsingor e é este um dos indícios que levam os historiadores a acreditar que Shakespeare nunca esteve em Helsingor. A Inglaterra da primeira metade do século XVII conhecia as lendas dinamarquesas sobre o princípe Amled assim como Helsingor então segunda cidade mais importante da Dinamarca. Esta familiaridade com a Dinarmca era em parte devida ao casamento de James VI da Escócia e James I de Inglaterra e Irlanda com uma princesa dinamarquesa, Anna da Dinamarca. A noite de núpcias foi no castelo de Helsingor.

O castelo está hoje totalmente invadido pela presença de Hamlet. Dezenas de crianças correm pelo castelo mascaradas de Hamlet recitando excertos de Shakespeare e quando estamos nas muralhas, frente ao mar olhando para a Suécia, ali tão próxima mas que não se vê em tempos de tempestade, damos por nós à procura do fantasma do rei Hamlet.

Tuesday, June 12, 2007

L'Histoire d'Adèle H

É para mim um momento especial, e cada vez mais raro, descobrir um novo filme de François Truffaut. Tenho os meus preferidos mas em todos encontro a mesma sensibilidade extrordinária que me faz viver cada um dos seus personagens. Descobri ontem L'Histoire d'Adèle H (1975) com Isabelle Adjani no papel da filha mais nova de Victor Hugo. A vida de Adèle foi uma busca identitária infructuosa. Loucamente apaixonada por Pinson, deixa tudo para o seguir ou melhor, preseguir. Provavelmente vítima de erotomania, entre outras patologias, não consegue compreender que a sua paixão não seja correspondida e pouco a pouco caminha para a loucura. A sequência de deambulação anónima pelas ruas miseráveis da ilha dos Barbados onde já nem sequer reconhece Pinson ficam na minha memória como o momento mais inesquecível deste filme. Adèle esconde a sua não-existência por detrás de identidades múltiplas, negando quem é, quem é seu pai (que não devemos esquecer, era talvez um dos homens mais conhecidos da época), fazendo-se passar pela sua irmã morta, Léopoldine, a filha preferida de Victor Hugo e mulher de extraordinária beleza adorada por todos. Adèle mente e esconde-se o tempo inteiro em busca de si própria. Não sendo capaz de rejeitar a sua identidade familiar mas não querendo assumi-la alterna entre aceitação e recusa de ser uma HUGO, Truffaut opta assim por este H anónimo que apenas nos permite esquecer quem é Adèle durante uns instantes. O desafio maior deste filme era talvez fazer com que o espectador não sucumbisse à beleza da actriz e se envolvesse demasiado na sua admiração para não compreender a rejeição de que é vítima Adèle. Isabelle Adjani está magnífica neste filme, incarnando corpo e alma Adèle. Não é dos meus Truffauts preferidos mas, uma vez mais, Truffaut tem tudo certo.

Grande acontecimento

Jonas adere à blogosfera à sua maneira